Escrevendo Fantasia 2: Quebrando o molde dos personagens com defeitos

Construa personagens mais humanos e memoráveis por meio de falhas, conflitos internos e escolhas imperfeitas — mesmo em mundos fantásticos

Por Fabricio Azevedo.

Em seu livro O Otelo Brasileiro de Machado de Assis, a crítica e pesquisadora californiana Helen Caldwell lançou uma nova camada sobre Capitu, Bentinho e Escobar, da obra Dom Casmurro, de Machado de Assis. Ela defendeu a tese de que Bentinho, o circunspecto personagem principal, era um “narrador não confiável”. Ou seja, a história era a versão dele — e não necessariamente a verdade. Essa discussão tornou o personagem ainda mais interessante e mostra a grande importância de se criar figuras bem estruturadas e com falhas.

Um personagem precisa de coerência. Como ele fala? Imagine-o entrando no seu quarto agora. Como anda? Ele ou ela — ou qualquer que seja o pronome — parece alguém real? Criar um pequeno perfil com características básicas, como idade, aparência, vocabulário e temperamento, ajuda a manter a unidade. Mas o que realmente fará sua criação respirar é quebrar esse molde. A mudança de comportamento deve vir por motivos reais, embasados na história. A forma como os personagens secundários percebem essa transformação é uma ótima maneira de marcá-la, criando uma ambiguidade entre o que o personagem acredita ser e o que os outros — e o próprio leitor — veem.

Na fantasia, infelizmente, há uma tendência a criar personagens um tanto monocromáticos. São sempre o guerreiro destemido, o mago sábio, o cientista genial, a princesa de beleza estonteante, a espiã femme fatale… e por aí vai. Me dê um minuto enquanto eu bocejo… Pronto! O truque para criar personagens mais interessantes é algo muitas vezes ignorado: defeitos. Muitos defeitos. A princesa pode ter um dentinho torto e o guerreiro, pavor de cobras.

Os melhores defeitos são os de caráter. Algo que contrasta com o restante da personalidade. Isso abre espaço para o crescimento do personagem. Um caminho comum é superar esse defeito ou aprender a conviver com ele. O contrário também é válido: o defeito pode corrompê-lo, tornando-o irreconhecível. Um bom exemplo é a transformação de Anakin Skywalker em Darth Vader, em Star Wars. A ambição e a insegurança o levaram ao Lado Negro.

Outro autor que trabalha isso de forma extraordinária é Tolkien, na saga O Senhor dos Anéis. A história começa com uma escolha de herói incomum. Não é o rei oculto Aragorn, nem os elfos mágicos como Legolas, tampouco os habilidosos anões como Gimli. Os heróis são hobbits, uma raça pequena, mais preocupada com hortas, jardins e um bom almoço. Mas são Samwise e Frodo que conseguem realizar o que nenhuma outra raça conseguiu: destruir o anel do poder.

Durante a jornada, vemos Frodo ser gradualmente corrompido pela influência do anel, enquanto Samwise, seu jardineiro, carrega a missão até o fim. A relação entre eles, nos livros, é mais servil do que nos filmes — e, por favor, não me ataquem com orcs e balrogs por essa opinião — onde se aproxima quase de um bromance. No entanto, são os defeitos de Frodo, como a hesitação e a insegurança, que permitem seu desenvolvimento e dão espaço para que personagens como Samwise revelem sua grandeza. Vale conferir também o que eu faço em meu livro A Mulher de Negro.

Em resumo: é saudável — e necessário — para a narrativa ter personagens cheios de defeitos.

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