Escrevendo para Fantasia 1: O mundo está nos detalhes

Como a atenção aos pequenos elementos pode transformar mundos imaginários em experiências inesquecíveis para o leitor

Por Fabricio Azevedo.

Escrever ficção é operar em um espaço ficcional. Toda história precisa de seu cenário, algo essencial para desenvolver a narrativa. Os personagens precisam de um lugar para se mover e, muitas vezes, o cenário se torna um personagem por si só. O filósofo e escritor italiano Umberto Eco explora essa relação em vários de seus ensaios, mas é no seu romance “O Nome da Rosa” em que isso é realmente demonstrado na prática. A história se passa em um monastério medieval que tem uma biblioteca impressionante. Esse espaço assume uma importância primordial para toda a narrativa.

O cenário de O Nome da Rosa é especial pelos detalhes que Eco usou para construí-lo. Um trabalho de pesquisa impressionante, o que leva o autor e leitor a firmarem o que o filósofo chama de “contrato ficcional”: a imersão nesse mundo construído. Se você escreve fantasia, os detalhes fazem diferença nessa imersão. Dão veracidade e “colorido” para sua narrativa. Mais ainda, eles seguram o leitor. Meu amigo, o compositor e escritor Júlio Pepe Barradas, escreveu um livro que se passa na construção de Brasília, intitulado “Chão Submerso”. O cenário principal da história é a “Vila Amaury”, um grande acampamento dos candangos originais — os operários que construíram a nova capital. Essa área seria inundada para a formação do lago artificial de Brasília, o Lago Paranoá.

Pepe fez um excelente trabalho recriando o ambiente do acampamento, o desespero das pessoas que logo teriam suas casas cobertas pelas águas e os personagens que poderiam facilmente ser encontrados nos primeiros anos do Distrito Federal. Ele fala de máquinas de escrever, lojas e carros da época. Fiz uma pequena correção na sua obra. Em um trecho ele fala de uma “velha Kombi”, algo muito comum hoje em dia, mas não na época. O veículo da Volkswagen foi lançado em 1957, e o lago encheu em 1959. Ou seja, não poderia ser considerado antiquado. Um detalhe pequeno, que meu amigo deve corrigir na próxima edição do livro dele e que vai ajudá-lo a construir um mundo ainda mais realista.

No meu próprio livro, A Mulher de Negro, uso diversos pequenos detalhes para compor o cenário, como locais de São Paulo, objetos e até resultados de futebol. Em algum momento, meus leitores, amigos ou editora vão apontar algum buraco na minha trama. Mas isso faz parte da diversão de escrever. Quando você escreve, pensar nos detalhes é um desafio — e é isso que torna a literatura um exercício fascinante. Quais roupas? Como são as ruas? E os carros? Que tipo de seres vivem no seu mundo? Traga os leitores para dentro da sua história alimentando a imaginação deles.

Em um texto de fantasia, o cenário pode ser uma versão de nosso mundo ou um universo totalmente diferente — alienígena ou de outro tempo. Mas, em qualquer um desses casos, são os detalhes que vão abrir uma porta para nós entrarmos nele.

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